Eu, eu mesmo e a gastronomia Na cozinha do Club Med com o chef Adilson.     A fome é sempre um grande problema. Seja ...

         Eu, eu mesmo e a gastronomia


Na cozinha do Club Med com o chef Adilson.

   A fome é sempre um grande problema. Seja aquela fome que sentimos no final da manhã, quando chega próximo ao almoço, ou a fome de alguém que está há dias sem comer por conta da miséria que assola sua vida. Parece meio leviano comparar as duas situações, mas a dor da fome é igual a qualquer ser vivo. Mas existe uma fome que é mais dolorosa, mais destrutiva e mais humilhante do que qualquer outra: a fome da alma.
   Esse tipo de fome corrói o nada, causa dores terríveis em órgão nenhum, levam a morte de alguém que não parou de respirar. Como alimentar então essa parte selvagem, faminta e intocável de nós mesmos? A resposta parece simples, mas na verdade é caótica: sonhos.
Na verdade, o que move todos os seres humanos é o sonho por uma realidade diferente, algo que não possuímos mas que almejamos com todo o fervor de nossa alma. Por que sempre querer algo diferente do que temos? Porque a estagnação é ridícula e pequena, e nos transforma e seres menores do que já somos. "Mas o que esse gordo tagarela tá querendo falando sobre sonhos em uma coluna de gastronomia?".       Queridos, eu quero tudo! Eu quero, todas as terças feiras, abrir a minha caixa torácica e expor minhas entranhas pra vocês, de uma forma quase brutal. Acho que não seria justo com os leitores eu utilizar meias palavras e toda semana trazer receitinhas marotas para garotas e garotos que acham que sabem cozinhar porque fizeram um bolo de chocolate que não solou.
   Então, todas as terças feiras, eu trarei pra vocês os meus sonhos! As informações que completam a minha alma, pois elas mostram que o meu sonho de me transformar em um grande cozinheiro está cada dia mais longe, porque todos os dias eu descubro coisas novas, técnicas novas, cozinhas novas, produtos novos, sabores novos, temperos novos... Cada dia o buraco na minha alma causado pela fome aumenta mais, e todos os dias eu tento preencher esse buraco com novas informações que só fazem ele ficar maior. E eu simplesmente adoro esse sofrimento!
   Não, meus amores... Não se assustem com as psicoses do tio Bruno. Eu sou assim mesmo: meio obsceno, meio cômico, meio inteligente, meio vulgar... Eu sou cheio de meios! Então, não fiquem chocados com as coisas que vocês podem vir a ler aqui. Libertem-se dessa visão que as pessoas que trabalham com cozinha (os chamados "chefs", seres mitológicos que eu irei desvendar futuramente pra vocês) são pessoas calmas e finas. Meu amor, gostaria que alguém me mostrasse a finess de passar 16 a 18 horas por dia dentro de um local extremamente quente, utilizando um uniforme que deixa o corpo envolto a mais ou menos 56 graus, sujo de caldo, gordura, suor, vapor, sangue e todos os tipos de materiais orgânicos, sofrendo a pressão dos famintos que estão no salão, dos garçons que estão histéricos por conta de prováveis erros no pedido (na maioria das vezes nem nossa culpa é) e principalmente do seu Chef ou Sous-Chef. A cozinha nos torna menos humanos com o passar do tempo.
     É muito diferente cozinhar em casa ou na casa de alguém, pra um grupo limitado de pessoas que estão ali pra curtir o seu trabalho, e no final, por mais que não tenha ficado perfeito, te elogiarem pelo simples fato de que elas respeitam o que vocês faz. É calmo, é tranquilo, é quase chato... Querem saber? Eu gosto mesmo de uma cozinha que serve 400 pratos por dia, e você já está lá a 15 horas sem conseguir comer ou beber água, e tem gente desesperada correndo por todos os lados! É nessa hora que você está em modo automático que você percebe que é realmente bom no que faz. Quando você, depois de um dia inteiro de trabalho e dedos cortados, você deita na cama e pensa no quanto você é doente por amar passar por isso, e o quanto você é grato por ter queimaduras e cortes na sua mão, porque aquelas são marcas de uma guerra que foi vencida.
    Isso é gastronomia, minha gente! Isso é cozinhar! É abrir mão da sua saúde e da sua vida social pra que as pessoas tenham saúde e vida social! É uma conta muito simples! Os médicos me entendem, os engenheiros me entendem, os enfermeiros me entendem, os policiais me entendem, os bombeiros me entendem, todos os trabalhadores me entendem porque todos nós abrimos mão de certas coisas pra que as outras pessoas tenham acesso aquilo!
    Bem, sem me delongar muito na minha esquizofrênica apresentação, quero dizer que estou muito feliz em participar dessa equipe desse blog maravilhoso! Como sempre, eu serei a ovelha negra, mas acho que foi por isso que me chamaram, pra poder trazer uma visão diferente do que vocês estão acostumados! Espero que eu possa passar um pouco pra vocês da minha pequena, mas digna experiência na gastronomia, e consiga transferir pra vocês um pouco do meu sádico e doentio amor por essa arte. Até semana que vem (se eu não for demitido logo na primeira postagem por ser um maluco desajustado, é claro!) e lembrem-se de uma coisa pro resto das vidas de vocês: NUNCA. DEVOLVA. UM. PRATO. EM. RESTAURANTE. NENHUM! NUNCA! Grande beijo!

Bruno Salomão

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